16/04/2009 15:18

Thiago Lacerda sem papas na língua critica políticos em entrevista

Silas Pereira
Os Paparazzi
O ator Thiago Lacerda veio a São José dos Campos com o espetáculo Calígula, no Teatro Municipal. O espetáculo conta a história do jovem imperador romano que quebra com grandes estruturas da sociedade, como família e religião. O clássico texto foi escrito pelo Nobel da Literatura Albert Camus e é alvo de certos preconceitos. Para comentar a peça e também outros assuntos, Thiago Lacerda não poupa críticas aos políticos, fala sobre Big Brother, natação e sobre os novos desafios da TV brasileira. Imperdível!

'Quando fui convidado para fazer a peça, eu tive uma reação preconceituosa, já pensei "lá vou eu fazer cenas de nudez no palco"'

Espetáculo polêmico

Como é fazer uma peça pesada e séria como Calígula?
Thiago Lacerda - Fazer esse espetáculo é muito prazeroso. Eu adoro a peça, adoro dizer esse texto, tem sido incrível. O convite foi feito pelo Gabriel (diretor), e ao ler o texto, me interessei imediatamente.

O projeto mudou alguma coisa na sua visão como ator?
Thiago Lacerda - Mudou muito, Me acrescentou muito! O ator não passa ileso por esse texto, ele propõe muitos desafios.

A peça aborda temas polêmicos, como sexo e homossexualidade. Como tem sido a reação do público?
Thiago Lacerda - Tem sido tudo certo, o público me surpreende muito. Aliás, essa é uma peça surpreendente em vários aspectos, no que diz respeito a mim, ao texto e também à reação do público. A finalização do trabalho, feita pelo diretor Gabriel Villela, também é surpreendente. O espetáculo é realmente muito bom.

Acho que o Big Brother é uma boa ideia usada de uma maneira equivocada
"Acho que o Big Brother é uma boa ideia usada de uma maneira equivocada"
O que você acha da nudez em peças e filmes? Isso ainda é um tabu no Brasil?
Thiago Lacerda - Eu acho que o Calígula é uma figura controversa demais. As pessoas, e eu me incluo nisso, têm uma visão preconceituosa do Calígula. Quando fui convidado para fazer a peça, eu tive uma reação preconceituosa, já pensei "lá vou eu fazer cenas de nudez no palco". Mas na verdade não é nada disso. Quando eu fui lendo o texto, eu fui vendo que era preconceito da minha parte. E esse preconceito é por causa do filme, que é um filme erótico. Ele nunca teve uma intenção biográfica, ele foi feito para ser um filme de sacanagem. E o filme foi feito 40 anos depois da peça, ou seja, não tem nada na peça que venha do filme. Mas a peça também não é uma biografia, ela usa a história do personagem para fazer as pessoas refletirem sobre a natureza humana, poder, sexualidade e religião.

A cultura no Brasil

Qual é a sua opinião sobre a produção cultural no país no momento?
Thiago Lacerda - No momento, está difícil. Falta muito incentivo, sempre faltou, mas as coisas têm piorado. Essa crise veio de encontro à falta de incentivo cultural. A gente tem pessoas muito incompetentes cuidando da cultura, sempre teve. E talvez, Juca Ferreira (Secretário Executivo do Ministério da Cultura) tenha agravado essa situação. Mas o que acontece é que tem muito pouco sendo feito. O setor está estagnado. Calígula é um clássico do século XX, o escritor é Nobel da Literatura, o elenco é de primeira e o diretor é super reconhecido. É preocupante que um espetáculo como esse não tenha patrocínio. E isso é culpa do preconceito das pessoas. A gente vive hoje a ditadura dos diretores de marketing, que entendem bastante de marketing e nada de cultura. Eles não sabem sequer ler um texto, não têm acesso à importância daquilo. Esse texto do Camus é fundamental. Por isso eu digo com toda a certeza que Danilo Miranda (Diretor do Sesc) é, há muitas décadas, a pessoa mais importante na cultura do Brasil. Sem ele, a peça não sairia do papel.

Esporte

Você praticava natação. Falta incentivo para o esporte também?
Thiago Lacerda - Falta muito, é vergonhoso. Com exceção do futebol e talvez do vôlei, os outros esportes são muito sacrificados. O Ministério do Esporte é tão incompetente quanto o Ministério da Cultura. Desde o Zico, não vi ninguém se esforçar pelo esporte brasileiro. O Presidente não está preocupado com cultura, esporte, e muito menos com a educação, que está intimamente ligada aos dois primeiros. Os políticos brasileiros só estão preocupados em achar maneiras de se livrarem dos escândalos em que se envolvem.

Big Brother Brasil

Você fez par romântico com a Grazi Massafera na estreia dela em uma novela. Foi um casal que agradou o público e gerou audiência. Mas o que você acha do Big Brother e das pessoas que participam do programa, saindo direto para o meio artístico?
Thiago Lacerda - Eu posso falar da minha experiência e do meu contato com a Grazi. Ela é muito legal, tem carisma e é esforçada. Não consigo fazer uma analogia com o programa. Acho que o Big Brother é uma boa ideia usada de uma maneira equivocada. Se o programa estivesse em minhas mãos, ele seria usado como uma oportunidade de provocar nas pessoas uma reflexão a respeito de relacionamentos. Acho que o programa devia trazer informação e cultura, mas é um programa raso, então não me interessa. Para ver mulher bonita, eu saio na rua. É entretenimento e só.

Televisão

E quanto à queda de audiência nas novelas? Qual é a saída para isso?
Thiago Lacerda - Acho que tem uma coisa muito clara nisso, que é o final dos tempos. As pessoas assistem menos televisão, elas trabalham muito mais. Além de que têm muito mais opção de entretenimento, como Internet, TV a cabo. Eu sou um exemplo disso. Na adolescência, assistia muita TV, hoje o pouco de TV que assisto é a TV a cabo.

Qual a sua relação com a Internet?
Thiago Lacerda - Eu não tenho paciência para Internet, acho que demora muito. No máximo recebo meus e-mails, e mesmo assim não leio todos. Às vezes fico cinco dias sem ligar o computador. Mas como ferramenta de pesquisa, a Internet é genial, te dá acesso ao mundo.

Então deixe um convite pro joseense ver a peça.
Thiago Lacerda - Todo mundo deve assistir à peça porque é um texto imperdível, fundamental, que inevitavelmente provoca reflexão. Porque mesmo que as pessoas não percebam, o que está sendo ouvido faz com que as pessoas pensem e passem a se enxergar quanto ser humano diante da fragilidade de um imperador. O elenco é de primeira linha, o diretor tem um currículo extenso e sem contar que o escritor é um dos mais importantes do século, um Nobel de Literatura.

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