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Joyce Xavier

Entre batuques e poesia, entrevistamos Cordel do Fogo Encantado

O contrabaixo e o trompete anunciavam que São José dos Campos receberia, pela primeira vez, um espetáculo único. Em meio a um clima teatral e folclórico, o Cordel do Fogo Encantado foi recebido pelos anfitriões, o público, com muitos aplausos e um calor que esquentou o frio do sábado à noite.

Ticiane Toledo, publicado em 21/06/2009.
O Cordel do Fogo Encantado é uma banda que se diferencia em um aspecto bastante peculiar: com eles, não é a letra que acompanha a música, mas o contrário. As composições são poesias orquestradas por instrumentos marcantes, como os tambores da cultura africana. Versos que retratam paisagens, épocas e pessoas, mas que também evidenciam os dramas dos nordestinos. Isso fica bem claro em músicas como "Chover", que fala sobre a seca e o pedido pela chuva naquela região, e "A matadeira", que relembra o massacre em Canudos (Bahia, 1896) e denuncia a atual violência nas favelas brasileiras.
Cordel do Fogo EncantadoFoto: Joyce Xavier
Era visível que a platéia havia sido contaminada pela energia típica do Nordeste. Para atender a todos os fãs, o grupo tocou os grandes sucessos dos primeiros discos e também apresentou as canções mais recentes, do álbum Transfiguração. "Vocês nos desculpem, mas queremos botar prá fora as músicas inéditas", disse o vocalista José Paes de Lira, o Lirinha. "Vamos usar São José dos Campos como cobaia", continuou. O público, é claro, não se incomodou nem um pouco.

Depois de quase uma hora de fusão cultural, Lirinha anunciava que o show chegava ao fim: "Estamos pegando a estrada, mas vamos levar as saudades de São José dos Campos". E, assim, eles foram. Agora, a espera dos fãs dos cordeleiros é pela próxima visita.
Cordel do Fogo EncantadoFoto: Joyce Xavier

Entrevista

Minutos antes do início do show, Lirinha falou um pouco sobre as expectativas para a apresentação, a banda e os projetos para o futuro. Confira alguns trechos da conversa:

É a primeira vez que o Cordel vem a São José dos Campos. Até agora, qual foi a impressão que tiveram da cidade?
Lirinha: É uma cidade conhecida, bastante importante, pelo menos no nosso imaginário. Espero que, a partir de hoje, a gente consiga começar uma relação com a cidade. Uma das características do nosso grupo é essa relação mais próxima mesmo, que é nossa maior divulgação.

O show de hoje é apenas uma amostra dos fãs que conquistaram ao longo da carreira. Vocês, um dia, já imaginaram que chegariam tão longe, que alcançariam um público vasto como esse?
Lirinha: A gente ainda tem vontade de ampliar mais, assim. O grupo ainda se encontra num momento de caminhada para um contato mais amplo com o público. Pretendemos viajar mais, levar nosso som para mais lugares. Acho que a gente não sabia o que ia acontecer, mas de qualquer forma, estávamos abertos a qualquer coisa. Então, essa abertura nos deixou mais preparados.

Vocês já gravaram com a MTV (MTV Apresenta, em 2005) e até conquistaram prêmios (TIM, Caras, entre outros) - o que é um bom retorno para a banda. Mas vemos que, com relação a bandas e artistas que começam a se popularizar, vem também uma espécie de crítica, alegando que "o que cai no gosto do povo se torna ruim". O que acham dessa "síndrome do underground"?
Lirinha: É uma síndrome que existe em todos os núcleos. Para muitos do meio alternativo, o próprio Cordel é uma banda que está muito em evidência. Mas para um cenário nacional, convencional, é uma banda que não toca em rádio ou TV, que não aparece. Na minha cidade (Arcoverde, Pernambuco), por exemplo, muita gente não tem acesso ao nosso som. É muito relativo, porque há grandes sucessos foram grandes clássicos, assim como também há grandes sucessos foram um fiasco. Bob Marley e Bob Dylan foram grandes sucessos mundiais. No Brasil, temos Chico Buarque. Acredito que a música deve ser composta sem levar isso em consideração.
Cordel do Fogo EncantadoFoto: Joyce Xavier
Já que mencionou a composição, de onde vem a inspiração para as composições da banda?
Lirinha: Isso é bem amplo, porque o Cordel abre para todos os integrantes na hora da composição. Então, cada integrante tem uma experiência de vida musical. Acredito que a música percussiva brasileira, da religião africana e a poesia, a literatura. O Maguebeat também influenviou, porque é um movimento que estava muito forte quando a gente começou. Então, é impossível não ter sido contagiado por Chico Science.

Dentre os CDs lançados, qual é o trabalho preferido da banda?
Lirinha: Acredito que todos fazem parte de um momento diferente da banda. Agora, estamos mais focados no novo disco, que vai ser dividido em três capítulos. O primeiro vai ser lançado ainda esse ano. Os outros, a gente pretende lançar em diferentes períodos de tempo. Coisa de meses.

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